HISTÓRIA DA CERÂMICA DE CUNHA

A história da cerâmica em Cunha é um reflexo direto da própria formação cultural e econômica da cidade, marcada pela abundância de argila na região e pela resiliência de seus habitantes. Essa trajetória de séculos pode ser compreendida em três grandes fases, que transformaram a cidade em um dos mais importantes polos artísticos do país.

O Período Pré-Colonial:
As Raízes Ancestrais

Muito antes da chegada dos europeus, o território que hoje abriga o sertão cunhense já era habitado por povos originários, frequentemente identificados como de origem guaianá ou tamoio. Essa primeira fase é comprovada pelos fragmentos de cerâmica indígena que, ainda hoje, são eventualmente encontrados em locais que serviram de assentamento.

Com o avanço do movimento das bandeiras e o declínio das populações indígenas originais, houve uma forte assimilação de suas técnicas pelos colonizadores. Foi desse encontro e da miscigenação que nasceu a cultura caipira local, dando origem à primeira forma documentada de produção cerâmica no município: a tradição das paneleiras.

O Ofício das Paneleiras
e dos Oleiros

Durante o período colonial, Cunha — então conhecida como Povoado do Facão — fazia parte da Rota do Ouro em direção ao porto de Paraty. Enquanto a nobreza e os latifundiários utilizavam panelas de ferro fundido e cobre estanhado trazidas pelos prestigiados tropeiros, a população camponesa dependia exclusivamente das panelas de barro locais.

Quando o porto do Rio de Janeiro ganhou protagonismo, a Rota do Ouro foi desviada, provocando um severo declínio econômico e o êxodo da elite local. Foi justamente nesse cenário de escassez que o ofício matriarcal das paneleiras atingiu seu auge. O terreno rico em veios de argila forneceu a matéria-prima para que mulheres caipiras garantissem a subsistência de suas famílias, repassando a técnica de mãe para filha ao longo de gerações. Paralelamente, surgiram diversas olarias, uma atividade predominantemente masculina focada em materiais de construção e que chegou a dar nome a bairros atuais da cidade.

No século XX, o acesso facilitado ao Vale do Paraíba por veículos motorizados inundou a região com bens de consumo industriais (como panelas de metal e blocos de cimento). Sem conseguir competir, a tradição entrou em declínio. As filhas das paneleiras buscaram profissões mais rentáveis e o ofício quase desapareceu. Hoje, em 2026, restam apenas alguns poucos oleiros em atividade, mas o saber-fazer das mulheres foi guardado por figuras históricas como Benedita Olímpia de Abreu (Dona Dita Paneleira) e Annúncia dos Santos (Nhá Núncia).

O Renascimento com
a Alta Temperatura

A história da cidade mudou definitivamente em 1975, inaugurando a terceira fase da cerâmica local. Um grupo formado pelos ceramistas portugueses Alberto Cidraes — exilado pelo regime ditatorial salazarista e arquiteto de formação — e Maria Estrela, junto aos japoneses Toshiyuki e Mieko Ukeseki, decidiu se instalar no Brasil após se conhecerem no Japão.

Eles escolheram Cunha pela localização estratégica no eixo Rio-São Paulo, pela farta disponibilidade de argila e pela cultura cerâmica pré-existente. Com o apoio do então prefeito Elias José Abdalla (o “Zelão”), receberam a doação do prédio do Antigo Matadouro. Ali nasceu o primeiro ateliê de cerâmica de alta temperatura do município, introduzindo os imponentes fornos Noborigama, que atingem os 1.300 °C necessários para vitrificar os esmaltes.

O espaço transformou-se em um imã para artistas de todo o país e uma escola para os jovens locais, criando uma nova vocação econômica para a cidade. Durante as décadas de 1980 e 1990, grandes ateliês se consolidaram — como o Suenaga & Jardineiro e o Ateliê de Leí Galvão e Augusto Campos. Com a adoção de fornos a gás e elétricos, o ecossistema artístico se multiplicou. Quando o grupo original se dissolveu, o Antigo Matadouro foi transformado na Casa do Artesão, até hoje uma importante vitrine da arte cunhense.

Preservação, Ensino
e Reconhecimento Nacional

Para organizar e expandir esse legado, pioneiros e donos de ateliês fundaram em 2009 o Instituto Cultural da Cerâmica de Cunha (ICCC). O instituto criou um dos primeiros cursos formais de cerâmica do Brasil, ensinando desde a modelagem até a esmaltação e queima. Desde então, mais de 400 alunos já foram formados, garantindo a renovação da arte na cidade.

Nos anos mais recentes, um esforço vital de resgate histórico ganhou força no bairro da Vargem do Tanque. Apoiado pelo ICCC e por parceiros privados, um coletivo artístico — formado em sua esmagadora maioria por mulheres — atua para salvaguardar as técnicas ancestrais das antigas paneleiras. Elas preservam todo o processo original: da extração local do barro à modelagem manual e queima no primitivo “forno de barranco”, mantendo viva a memória afetiva e a identidade da cidade.

Todo esse percurso de preservação, inovação e excelência artística foi coroado em 2022, quando a Lei nº 14.343 conferiu a Cunha o título oficial de Capital Nacional da Cerâmica de Alta Temperatura.

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